Cerâmica Ancestral Renasce Pelas Mãos de Mulheres da Amazônia

Uma narrativa viva. Assim é como a coordenadora do Grupo de Agricultores Orgânicos da Missão, Bernardete Araújo, descreve a japuna, um tipo de forno de origem indígena. Hoje, essa e outras peças esquecidas estão sendo trazidas de volta à vida pelas mãos de mulheres agricultoras e ceramistas da comunidade de Tefé (AM), graças ao projeto Cadeias Operatórias das Japuna no Médio Solimões.

“A japuna, para mim, representa uma história viva, um museu vivo. Desde criança, eu via minha mãe produzindo e usando essa peça para torrar farinha, café, cacau, milho e castanha. Estamos resgatando o conhecimento tradicional de nossas mães, avós e bisavós”, conta a coordenadora. Outra vantagem de retomar essa técnica ancestral é a oportunidade de gerar renda com a venda de vasos, fogareiros, fruteiras e panelas.

A iniciativa reuniu as mulheres da associação Clube de Mães para participar de todas as etapas do processo, conhecido pelos arqueólogos como cadeia operatória das japuna. Esse processo vai desde a coleta de barro na própria comunidade, passando pela modelagem e queima natural do material, até a finalização das peças, práticas transmitidas pelas suas antepassadas.

O projeto envolve três eixos de pesquisa: o primeiro baseado em escavações na região; o segundo, de caráter etno-histórico, fundamentado em relatos de livros históricos e na memória das mulheres; e o terceiro, etnográfico, baseado na observação das técnicas das ceramistas da comunidade. A iniciativa é fruto de uma parceria entre o grupo e o Instituto Mamirauá, uma organização social ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Segundo a arqueóloga do Mamirauá e uma líder da iniciativa, Geórgea Holanda, a produção das japuna estava adormecida há anos, correndo risco de desaparecer. “Mas elas estavam presentes na mente das ceramistas. Então, através do projeto, foi possível colocar em prática esse conhecimento transmitido de geração em geração por suas antepassadas”, relata.

“Retomar a produção das japuna significa resgatar o conhecimento tradicional de nossos antepassados. Devemos manter viva essa tradição, esse conhecimento e a continuidade dessa história de nossa ancestralidade”, afirma Bernardete.

De acordo com Geórgea, a relação entre o instituto e a comunidade é participativa, sempre respeitando as decisões dos membros da comunidade. “Esse trabalho só foi possível porque elas aceitaram e nos transmitiram esse valioso conhecimento”, conclui a arqueóloga.