A Promessa e Perigo da Segurança Digital na Era da Ditadura

Rodríguez e seu coletivo receberam treinamento de segurança digital da Amate, outra organização LGBTIQ+ que milita nacionalmente. Desde maio, a Amate treinou 60 pessoas em questões como direitos digitais, análise de risco, extorsão, phishing, outing, vigilância e pornografia de vingança. Isso inclui também a implementação de ferramentas como o uso de VPN e plataformas de mensagens criptografadas, como Signal e Proton.

“Algo que os ativistas nos diziam e que é muito comum é que as pessoas pegam suas fotos do Facebook e as usam para se passar por eles em redes sociais, seja para atacar outros coletivos ou para minar aspectos pessoais. Então é uma experiência muito interessante. As pessoas não estão conscientes da exposição que temos no mundo digital,” diz Fernando Paz, responsável por ministrar esses cursos.

Para Rodríguez, essas ferramentas são uma maneira de confrontar um país que, com o apoio do governo, está se tornando cada vez mais violento com aqueles que representam a diversidade.

“Na universidade, tivemos experiências de discurso de ódio em aulas. Professores disseram que compartilham o pensamento de Bukele sobre ideologia de gênero e que isso precisa desaparecer porque envenena a juventude,” diz Rodríguez.

Uma das formas que o governo usou para esconder a violência contra a comunidade LGBTIQ+ é a falta de contabilização de crimes de ódio cometidos em El Salvador. Nos últimos anos, o Escritório do Procurador-Geral do país, também conhecido como FGR, utilizou as categorias “assassinato por intolerância social” e “assassinato por intolerância familiar” para contabilizar homicídios que não pode atribuir ao que chama de “crime comum” (na maioria das vezes, segundo a narrativa do governo, perpetrado por gangues). Não há clareza sobre o que se enquadra nessas categorias, que não são oficiais, não são definidas e são utilizadas apenas publicamente, não em relatórios administrativos. Entre 2023 e 2024, o FGR contabilizou 182 desses casos.

Diante da obscuridade estatística, o exercício de documentar e arquivar crimes de ódio foi assumido por organizações. O Serviço Social Passionista, um grupo anti-violência, descobriu que 154 pessoas LGBTIQ+ foram detidas durante o regime de exceção de El Salvador, que começou em março de 2022 e foi prorrogado 39 vezes até o momento. Diante disso, Nicola Chávez e sua equipe viram a necessidade de registrar casos de violência contra membros da população LGBTIQ+.

“Sempre tivemos a intenção de criar um observatório, mas com o início do regime de exceção, todos sabem que a violência policial e o assédio militar têm um impacto desproporcional na comunidade LGBT. Obviamente, isso nos machuca, e não sei em quem mais contar para conseguir denunciar,” diz Chávez.