A biomedicina poderia ter direcionado uma pessoa por vários caminhos diferentes. Mas foi no Laboratório de Fisiopatologia do Instituto Butantan que uma pesquisadora, ainda estagiária, encontrou seu lugar. Hoje, doutora em farmacologia e diretora do Centro de Desenvolvimento Científico (CDC), integra o instituto há mais de 30 anos. Durante esse tempo, investigou o potencial terapêutico do veneno de serpentes, esteve na linha de frente da pandemia de COVID-19 e contribuiu para a formação de vários cientistas.
O impacto do trabalho ultrapassou os limites do laboratório, especialmente durante a pandemia, quando a ciência passou a ocupar o centro do debate público. Pesquisas antes restritas ao ambiente acadêmico passaram a ser acompanhadas pela população, com a expectativa concreta de aplicação em tratamento e cuidado.
Antes disso, o caminho até a pesquisa foi guiado pela curiosidade. Ainda na graduação, a pesquisadora buscava compreender os mecanismos por trás das doenças. O primeiro contato com o Butantan também veio por meio de uma mulher, que a encaminhou a uma pesquisadora da instituição, definindo assim o rumo de sua carreira.
No Laboratório de Fisiopatologia, passou a investigar o potencial de substâncias presentes no veneno da cascavel, em especial a crotoxina. Essa substância, considerada nociva em determinadas condições, revelou-se uma fonte promissora para o desenvolvimento de novas terapias.
Os estudos evidenciaram que, em concentrações controladas, a toxina pode modular o sistema imunológico, com potencial terapêutico em processos inflamatórios e tumorais. Com o avanço das pesquisas, o foco passou a ser a compreensão detalhada de sua estrutura molecular, permitindo a reprodução dessas moléculas em laboratório.
Esse processo possibilita transformar um elemento natural em base para medicamentos, sem depender da extração contínua de venenos. A natureza funciona como um protótipo, permitindo aprender com ela e reproduzir essas moléculas de forma sintética.
A dimensão do trabalho se ampliou quando os resultados começaram a circular fora do ambiente acadêmico. A pesquisadora passou a receber cartas de mães com crianças em tratamento, pessoas que viam na pesquisa uma esperança.
Durante a pandemia, Sandra esteve à frente de importantes estruturas do Butantan, participando da organização de respostas à crise sanitária, incluindo iniciativas relacionadas ao diagnóstico molecular e à vigilância do vírus. A pesquisa passou a ter um impacto direto sobre decisões em saúde pública.
Ao longo de sua trajetória, a diversidade de gênero na ciência foi uma parte fundamental do caminho que Sandra teve que percorrer. No entanto, mesmo com avanços na participação de mulheres em publicações científicas, a desigualdade ainda persiste nos espaços de liderança.
Como diretora científica, Sandra acumula gestão, produção científica, formação de pesquisadores e captação de recursos. A maternidade também foi parte do processo, exigindo uma reorganização da rotina para dar conta de todas as demandas.
Sandra destaca a importância de uma rede de apoio formada por outras mulheres, desde o início de sua carreira até a família. Mesmo com reconhecimento, as diferenças de tratamento ainda são evidentes devido ao gênero.