Monitoramento Climático Indica Alta Probabilidade de Formação do El Niño no Segundo Semestre de 2026

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), unidade de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em parceria com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), divulgou na última sexta-feira (19) uma Nota Técnica Conjunta com a atualização das condições observadas e das previsões para o fenômeno El Niño em 2026.  

As análises indicam alta probabilidade de estabelecimento da fase quente do fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS) ao longo do segundo semestre deste ano. De acordo com previsões divulgadas pelo Climate Prediction Center (CPC), da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), a chance de persistência das condições do fenômeno supera 95% ao longo do segundo semestre do ano, com possibilidade de se manter até, pelo menos, o início de 2027. Os modelos climáticos também apontam condições favoráveis para que o evento alcance intensidade forte ou muito forte.  

O ENOS é um sistema climático resultante da interação entre oceano e atmosfera na região equatorial do Oceano Pacífico. Suas diferentes fases influenciam os padrões globais de circulação atmosférica, alterando a distribuição das chuvas, das temperaturas e do transporte de umidade em diversas regiões do planeta.  

O El Niño corresponde à fase quente desse sistema e é caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico equatorial em relação à média histórica. Esse aquecimento modifica a circulação atmosférica tropical e desencadeia uma série de efeitos que podem ser observados em diferentes continentes.  

Segundo o chefe da Divisão de Previsão de Tempo e Clima do INPE, Enver Ramirez, o fenômeno é resultado de processos complexos que envolvem a interação entre diferentes componentes do sistema terrestre.  

“Pequenas alterações podem impactar vários parâmetros, como a intensidade, a duração do evento e os efeitos que o fenômeno pode ter em diferentes regiões do planeta”, explica.  

Possíveis impactos no Brasil  

Os efeitos do El Niño variam de acordo com a região e a intensidade do evento. Historicamente, o fenômeno está associado a mudanças nos regimes de chuva e temperatura em diferentes partes do país, podendo influenciar atividades relacionadas ao abastecimento de água, geração de energia, agricultura, transporte e saúde pública.  

Na Região Norte, especialmente no leste da Amazônia, a tendência é de redução das chuvas e aumento das temperaturas. A combinação entre estiagem mais prolongada, baixa umidade relativa do ar e calor acima da média pode aumentar a vulnerabilidade da floresta e de áreas agrícolas à ocorrência e propagação de incêndios. A diminuição das precipitações também pode reduzir os níveis dos rios amazônicos, afetando a navegação, a pesca, a produção agrícola e o acesso de comunidades ribeirinhas a serviços essenciais.  

No Nordeste, o fenômeno tende a favorecer chuvas abaixo da média climatológica, principalmente em áreas do norte da região. A redução da nebulosidade permite maior incidência de radiação solar na superfície, contribuindo para a elevação das temperaturas e para o aumento da evapotranspiração. Esse conjunto de fatores pode intensificar o estresse hídrico da vegetação e ampliar o risco de incêndios florestais.  

No Centro-Oeste, embora a relação com o El Niño seja menos direta, há tendência de temperaturas mais elevadas, especialmente durante a primavera e o verão. O aumento do calor e a redução da umidade do ar podem favorecer queimadas. Em eventos mais intensos, parte da região também pode registrar chuvas mais regulares durante o verão e o outono.  

No Sudeste, os impactos sobre a precipitação costumam ser mais variáveis. Dependendo da interação com outros sistemas atmosféricos, algumas áreas podem registrar aumento das chuvas, enquanto outras podem enfrentar períodos de estiagem ou veranicos. Em relação às temperaturas, a tendência mais comum é de calor acima da média histórica.  

Já na Região Sul, os efeitos típicos incluem aumento das chuvas e maior frequência de eventos extremos associados a precipitações intensas. O fortalecimento do transporte de umidade favorece a formação de sistemas meteorológicos capazes de produzir acumulados elevados de chuva.  

O meteorologista do Grupo de Clima da Divisão de Previsão de Tempo e Clima do INPE, Fábio Rocha, destaca que o aumento das temperaturas é um dos sinais mais frequentes associados aos episódios de El Niño 

“Esse cenário pode favorecer a ocorrência de ondas de calor mais intensas e prolongadas, com impactos para a saúde da população, especialmente de grupos mais vulneráveis, como idosos, crianças, pessoas com doenças cardiovasculares e pets”, explica.  

Segundo o pesquisador, o período entre agosto e setembro merece atenção especial devido à combinação entre temperaturas elevadas, redução da umidade e aumento do risco de queimadas no Brasil Central e no sul da Amazônia.  

Fábio Rocha ressalta, no entanto, que cada evento apresenta características próprias. “Nenhum evento é exatamente igual ao outro. Por isso, embora existam padrões climáticos esperados, os impactos podem variar em intensidade e abrangência, afetando diferentes regiões de formas distintas”, afirma.  

As instituições responsáveis pela nota técnica destacam que o objetivo do documento é fornecer subsídios científicos para apoiar ações de planejamento, prevenção, mitigação e resposta por parte dos governos, do setor produtivo e da sociedade.  

O monitoramento das condições oceânicas e atmosféricas continuará sendo realizado de forma permanente. Novas atualizações serão divulgadas à medida que observações, análises e previsões forem incorporadas ao acompanhamento do fenômeno.  

Acesse a nota técnica completa aqui.