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quarta-feira, 21 de outubro de 2026
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A Cara da Educação: Da Lousa à Formulação de Políticas no MEC

Livia Campos21 de outubro de 20266 min de leitura

G abinetes, portarias, planilhas orçamentárias formuladas por gestores públicos que passam horas atrás das telas de seus computadores entre diversas reuniões. Talvez essa seja a ideia que muita gente tenha sobre o Ministério da Educação (MEC) e seu dia a dia. O que pode ser surpreendente, de fato, é que a gestão pública federal da educação só faz sentido porque é construída, pensada e executada por quem conhece de perto o cheiro do giz, o barulho do sinal no pátio e a rotina viva da sala de aula. Por trás das políticas nacionais, há professoras e professores que sentiram e continuam vivenciando a ansiedade da alfabetização, os desafios do ensino médio e as transformações da vida universitária.

Na realidade, garantir que a vivência da ponta guie a tomada de decisões no nível macro é o que dá alma ao trabalho diário do MEC. Dos materiais didáticos que chegam às crianças pequenas ao acolhimento de jovens e adultos à expansão das universidades, o “chão da escola” é o farol que conecta a burocracia estatal à realidade de milhões de brasileiros. 

Do lúdico ao pensamento crítico na alfabetização – Na educação básica, a transição da sala de aula para a gestão exige um olhar atento ao impacto que cada livro ou recurso pedagógico terá na vida de uma criança. Coordenadora-geral de Materiais Didáticos, da Secretaria de Educação Básica do MEC, Jaqueline Melo acumula duas décadas de magistério, com passagens pela alfabetização e educação de jovens e adultos (EJA) no Projeto Paranoá (DF). 

Jaqueline guarda na memória a sede de conhecimento que presenciou e a surpresa de um estudante ao aprender a grafia correta da palavra “alface, pois ele se surpreendeu ao descobrir que se escreve com L e não com U. Com C, e não com S. E a vontade dele de entender o motivo daquilo era tão grande. Ele queria tanto ler tudo, que isso me motivou a ser uma professora melhor”. É esse tipo de memória afetiva que orienta suas decisões técnicas à frente do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD).  

Jaqueline Melo
Jaqueline Melo – coordenadora-geral de Materiais Didáticos. Foto: Gilberto Evangelista / MEC

“A minha experiência como professora me ajuda sempre a remeter as decisões, do micro e ao macro, sempre com a lembrança dos meus estudantes e colegas que estão em sala de aula. Toda vez eu me pergunto como isso vai se dar na mão do estudante de seis, sete ou oito anos e como o professor vai utilizar o material de forma adequada e funcional. A gente busca fortalecer o programa do livro e do material didático sem, contudo, sobrepor a autonomia e a vontade dos docentes”, diz Jaqueline Melo. 

Representatividade e escuta ativa no ensino médio e na EJA – Para quem atua no ensino médio e na educação de jovens e adultos, o desafio pedagógico passa pela construção de pontes entre o conhecimento científico e as histórias de vida dos alunos. Estagiária no gabinete da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi), Marina Reis é licencianda em sociologia e atua como alfabetizadora popular no Projeto Ler, em parceria com a Unifesp, voltado a idosos. 

Com 25 anos, considera-se uma docente em início de carreira, cuja trajetória inclui vivências em escolas públicas de Ceilândia, região administrativa do Distrito Federal, onde sentiu a importância da representatividade de ser uma professora negra diante de turmas periféricas. No MEC, Marina acompanha o desenvolvimento de políticas públicas voltadas às diversidades, aplicando o aprendizado da gestão diretamente em seu planejamento de aula.  

Marina Reis
Marina Reis – estagiária no gabinete da Secadi. Foto: Gilberto Evangelista / MEC

“Estar dentro da Secadi e, ao mesmo tempo, na sala de aula, me permite ver os dois lados da cadeia. Todas as pautas que envolvem minorias – mulheres, pessoas negras, indígenas, populações do campo, entre outras – estão na secretaria. Transformar essas diretrizes políticas na prática pedagógica do dia a dia é o desafio que todos os professores enfrentam. Ver mulheres negras ocupando a gestão federal e a sala de aula mostra qual é a verdadeira cara da educação brasileira”, diz Marina Reis, estagiária da Secadi e professora. 

Formação universitária e o impacto real das decisões – Na educação superior, a formulação de diretrizes exige consciência sobre a complexa realidade dos estudantes brasileiros, que, com frequência, conciliam longas jornadas de trabalho, família e até mesmo grandes deslocamentos para acessar o ensino universitário. O coordenador-geral de Ensino e Planejamento Acadêmico da Diretoria de Desenvolvimento Acadêmico da Secretaria de Educação Superior (Sesu), Eduardo Cezari, é docente da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e soma mais de 20 anos de sala de aula e gestão universitária. 

Com doutorado em Educação em Ciência e Matemática, Cezari relembra, especificamente, do esforço de dois professores do interior do Tocantins que viajavam fins de semana inteiros para cursar a graduação. Para ele, a principal diferença entre a sala de aula e o MEC está na margem de teste: na docência, a simulação e o erro fazem parte do processo de aprendizagem; na gestão federal, qualquer medida gera impacto direto e imediato em todo o país.  

Eduardo Cezari
Eduardo Cezari – coordenador-geral de Ensino e Planejamento Acadêmico. Foto: Gilberto Evangelista / MEC

“A grande diferença está no impacto. A sala de aula é um espaço de simulação e aprendizagem conjunta. Na gestão, não é possível ter muita experimentação: qualquer decisão tomada gera impacto imediato na vida do estudante, do professor e do técnico na ponta. Por isso, precisamos ter clareza, ouvir a rede e avaliar como cada política chegará ao cotidiano da universidade e da escola pública”, diz Eduardo Cezari. 

O intelectual da educação e o compromisso com o futuro – Embora as rotinas de um gabinete ministerial e de uma escola pública tenham dinâmicas temporais distintas, os três servidores concordam que a essência da profissão permanece inalterada: o compromisso inegociável com a qualidade da aprendizagem e a transformação social. 

Ao olharem para a sala de aula a partir do ministério, os profissionais deixam mensagens de fortalecimento, valorização e esperança para os docentes de todo o país. 

Para Jaqueline Mello, o professor precisa ser reconhecido em sua dimensão plena: “o professor é um intelectual. Ele precisa entender de arte, cinema e cultura, articulando isso aos conteúdos tradicionais. A sala de aula é o lugar da intelectualidade brasileira”. 

Já Marina Reis reforça a importância da resistência e do engajamento de base: “não dá para os professores desistirem. Precisamos de gente comprometida e engajada na ponta, acreditando no trabalho de base para que as políticas públicas realmente se concretizem”. 

Por fim, Eduardo Cezari convida os educadores à escuta e construção colaborativa em um mundo que está em constante transformação tecnológica: “se queremos mudar a rotina escolar, a primeira coisa é sentar-se com os estudantes e ouvi-los. A educação hoje não é autoritária ou hierárquica, é um ambiente de colaboração mútua. Precisamos dar aos nossos jovens a segurança de que o mundo vai ser melhor”. 

Assessoria de Comunicação Social do MEC 

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