Pular para o conteúdo
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
Notícias
Educação

Da EJA Ao Título De Doutora Honoris Causa

Livia Campos15 de outubro de 20262 min de leitura

Frequentar a escola era um desejo que uma mulher de 68 anos tinha desde criança, mas, devido à sua realidade, não pôde ser alcançado na idade regular. Aos dez anos, já trabalhava como doméstica em casa de família. Enquanto as crianças da casa onde trabalhava iam para a escola, ela permanecia nos afazeres domésticos, sem poder frequentar as aulas ou brincar como gostaria.

O sonho dessa mulher permaneceu com ela até a vida adulta, quando não apenas voltou a estudar, mas também concluiu o ensino fundamental e o ensino médio, por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Essa trajetória também permitiu que ela pudesse iniciar uma luta pelos direitos das trabalhadoras domésticas. Essa iniciativa lhe rendeu o título de doutora honoris causa pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

A trajetória educacional dessa mulher foi retomada quando ela se aproximou de um grupo de trabalhadoras domésticas. Nos encontros, conheceu novas possibilidades de acesso aos estudos e teve contato com o curso noturno do Colégio Antônio Vieira, então conhecido como supletivo. Após integrar o grupo, matriculou-se na escola.

Estar em sala de aula significava realizar um desejo que havia sido negado na infância. Também permitia encontrar pessoas com experiências semelhantes às suas. Nesse ambiente, o aprendizado se somava à possibilidade de conversar sobre a própria vida e ouvir outras histórias. A escola passou a integrar um percurso no qual a formação e a atuação coletiva se fortaleceram mutuamente.

A atuação dessa mulher na defesa das trabalhadoras domésticas ganhou reconhecimento também no meio acadêmico. Ao receber o título de doutora honoris causa pela UFBA, ela viu sua história de organização e participação social ser acolhida pela universidade. A homenagem reconhece uma contribuição construída ao longo da vida.

Sua história também permanece viva na memória de quem compartilhou essa caminhada. Uma amiga admira a facilidade com que ela recorda acontecimentos e fala sobre o que viveu. Por isso, insiste para que essas lembranças sejam registradas em um livro.

Ao falar com quem ainda deseja estudar, essa mulher parte da própria experiência. Lembra o que significa conseguir ler e interpretar um texto, perceber os conhecimentos adquiridos e reconhecer os avanços na própria trajetória. Para ela, essa conquista alcança também as gerações seguintes.

A menina que observava outras crianças saírem para a escola tornou-se uma mulher que convida outras pessoas a buscar o direito de aprender. Uma história em que o acesso à educação se entrelaça com a participação social e a construção de uma voz pública.

Leia também

Ver a editoria