Quando existe um escritor, há pelo menos um leitor. No contato com livros, histórias, poemas, ilustrações e diversas formas artísticas, crianças e adolescentes ampliam seu repertório cultural, desenvolvem a imaginação e descobrem que também podem criar e contar suas próprias histórias. O Dia do Escritor, celebrado em 25 de julho, convida à reflexão sobre o papel fundamental da escola, das famílias e dos mediadores de leitura na formação de novas gerações de leitores e autores.
A data foi escolhida em homenagem ao I Festival do Escritor Brasileiro, promovido pela União Brasileira de Escritores (UBE), em 25 de julho de 1960. Mais de seis décadas depois, a literatura continua a ocupar espaços de encontro, diálogo e aprendizagem, como é o caso da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece até domingo (26), em Paraty (RJ).
O Dia do Escritor também celebra aqueles que transformam experiências, memórias e observações em histórias capazes de ampliar o horizonte dos leitores sobre o mundo. Para a escritora Socorro Acioli, vencedora do Prêmio Jabuti e autora de obras como “A Cabeça do Santo”, escrever é um exercício de sensibilidade e observação.
“O escritor é alguém que observa o mundo de forma mais atenta e profunda. Tenho muito orgulho da minha profissão e do impacto que aquilo que escrevemos pode causar nas pessoas. Espero que o Brasil se torne cada vez mais um país de leitores”.
Na Flip de 2026, com a poeta Orides Fontela como autora homenageada, estão programadas mais de 600 atividades pela cidade, como mesas literárias, oficinas e ações educativas da Flipinha e FlipEduca, direcionadas especialmente para crianças, jovens, educadores e famílias.
Durante a programação educativa, escritores, ilustradores e pesquisadores mostram que formar leitores vai muito além de ensinar a ler. Significa despertar a curiosidade, incentivar a criatividade e mostrar que cada pessoa pode encontrar na literatura uma forma de compreender o mundo e expressar sua própria experiência.
Essa é a visão da poeta, professora, tradutora e pesquisadora Nina Rizzi, autora de obras como “Tambores pra N’zinga”, “A Melhor Mãe do Mundo” e “Elza, a Voz do Milênio”. Responsável por traduzir para o português autores como bell hooks, Alice Walker e James Baldwin, ela acredita que o primeiro passo para formar escritores é fazer com que cada estudante reconheça o valor de sua própria voz.
“José Saramago dizia que, para ser escritor, basta escrever. Eu acredito totalmente nisso. Todos nós temos uma história para contar e só nós podemos contá-la”.
Para Nina, a escola amplia horizontes ao apresentar aos estudantes diferentes autores, culturas e formas de escrita, permitindo que cada criança encontre referências com as quais possa se identificar. “Minha sugestão para educadores é oferecer aos estudantes uma variedade de histórias: poesia, romance, conto, distopia, escritores do Sul, do Nordeste, do Norte, escritores brancos, pretos e indígenas. Além de celebrar as histórias que os próprios estudantes estão contando, lembrando que todos nós podemos contar nossas histórias”.
A formação de leitores também passa pela convivência com diferentes linguagens artísticas. A atriz, educadora e pesquisadora Cláudia Ribeiro defende que o contato com a arte desde a infância fortalece a criatividade, a sensibilidade e os laços entre as crianças.
“Ver crianças envolvidas com arte, leitura, ludicidade e criatividade nas escolas é o adubo necessário para essa semente florescer e trazer bons frutos para a nossa sociedade”.
Além das palavras, as imagens também desempenham um papel crucial na aproximação das crianças com os livros. A autora, ilustradora e roteirista Janaína Tokitaka contribuiu para a animação “Clube da Anittinha” e desenvolveu produções para diversas plataformas de streaming. Seu livro “Pedro Vira Porco-Espinho” possui uma tiragem de dois milhões de exemplares distribuídos pelo país e foi finalista do Prêmio Jabuti de 2020 com sua obra “Ovo de Pégaso”.
Segundo ela, as ilustrações tornam a leitura uma experiência mais envolvente e despertam o interesse das crianças pelas histórias. “A imagem tem o poder de encantar, de tornar reais palavras que às vezes não são tão concretas. Ela tem um potencial imersivo muito grande, e oferecer esse repertório visual para as crianças também é muito importante”.
Ao criar suas narrativas, Janaína procura iniciar com perguntas simples que despertem a imaginação dos jovens leitores. “Eu gosto de partir do ‘E se…?’. E se um dinossauro aparecesse no café da manhã? E se você acordasse em um mundo cheio de gatos? São perguntas que despertam curiosidade e fazem as crianças quererem seguir na leitura até o final”.
Para a autora, esse processo só é possível graças ao trabalho diário realizado nas escolas por professores, bibliotecários e mediadores de leitura. “Eu acredito muito no papel do formador de leitores no Brasil. Sem vocês, nossa literatura não circula. São profissionais de extrema importância”.
As reflexões compartilhadas durante a Flip mostram que formar leitores é um processo que começa cedo e envolve o acesso aos livros, às artes e às diferentes formas de narrar o mundo. Quando a escola cria espaços para a leitura, a escrita, a contação de histórias, a ilustração e a imaginação, ela também incentiva crianças e jovens a perceberem que suas próprias vivências merecem ser registradas e compartilhadas.
Neste Dia do Escritor, a literatura é celebrada não apenas como produção artística, mas como uma ferramenta de educação, cidadania e desenvolvimento humano. Ao estimular o gosto pela leitura desde a infância, escolas, famílias e mediadores contribuem para a formação de leitores mais críticos, criativos e participativos, assim como escritores das próximas gerações.