NOTÍCIAS ADVENTISTA: Covid-19 e saúde mental


Como entender e lidar com os traumas relacionados principalmente aos efeitos causados pela pandemia da Covid-19 nas famílias?

Por Sheila Cordazzo 2 de abril de 2021

Crianças são um dos públicos mais afetados mentalmente pela doença, a Covid-19. (Foto: Shutterstock)

Carlinhos era um menino de 8 anos que morava com seus pais ao lado da casa de seus avós. Seus pais eram amorosos e trabalhavam duro para conseguir o pão de cada dia. Pelas manhãs, Carlinhos ia pra escola e ao voltar para casa, sua avó o esperava com um delicioso almoço. Porém, um dia apareceu um vírus que mudou a rotina de sua família. De repente, ele não podia mais ir pra escola, brincar com seus amigos e nem mesmo ir para a igreja. Seus pais não podiam mais trabalhar e todas as notícias e assuntos eram em torno da Covid-19.

 

Mesmo com todos os cuidados necessários, Carlinhos pegou uma gripe. Parecia algo inofensivo, nada que o impedisse de brincar e correr pelo pátio de casa. Dois dias depois, ele não tinha mais nenhum sintoma, mas sua avó querida começou a se sentir cansada e com dificuldades para respirar. Ela foi para o hospital, onde foi diagnosticada com Covid-19. Uma semana depois, ela faleceu. Isso foi um choque para toda a família. Carlinhos não conseguiu se despedir de sua avó e ainda ouvia rumores de  que ele tinha passado o vírus para ela. A vida de Carlinhos mudou muito.

Hoje ele sofre de um distúrbio de ansiedade, que o impede de sair de casa. Seus pais perderam o emprego e as dificuldades financeiras são cada dia mais visíveis. Ele vê sua mãe chorar todos os dias e seu pai se tornou irritado e agressivo.

Embora Carlinhos seja um nome fictício, infelizmente, sua história não é. E provavelmente você já ouviu algo semelhante, talvez com algumas nuances e cores diferentes, mas com algo em comum: o trauma causado pela Covid-19.

O que é trauma?

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM V), o trauma, ou Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT), resumidamente é definido como a exposição a um episódio que traga ameaça de morte ou lesão grave. Os sintomas do TEPT são observados em três modalidades:

Fisiológicas – alterações no sono e no apetite, tremores, etc.

Comportamentais – alterações no humor, fobias, ansiedade, dissociação, irritação e agressividade.

Cognitivos – pensamentos e crenças disfuncionais como “sou uma pessoa má”; “não posso confiar em ninguém”; “Deus me abandonou”. Esses pensamentos negativos desencadeiam transtornos mentais que, se não tratados, podem destruir vidas.

A Covid-19 colocou bilhões de pessoas em isolamento e já infectou e matou milhões pelo mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu que esta pandemia trouxe uma crise à saúde mental.

O que fazer?

Felizmente, hoje temos tratamento para o TEPT. De acordo com a American Psychological Association (APA), as terapias focadas no trauma, como EMDR (Eye Movement Dessentiziation Reprocessing) e TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental) são as mais indicadas para o tratamento do TEPT.

Essas terapias auxiliam no processamento das memorias traumáticas e ajudam a modificar os pensamentos e crenças distorcidas. Quanto mais rápida a intervenção, mais eficaz o tratamento.

É muito comum passarmos por dificuldades relativas à saúde mental, especialmente durante uma pandemia. Por isso, aqui vão algumas dicas para reduzir o estresse e promover o equilíbrio emocional:

Respire – respirar fundo é uma das melhores maneiras de reduzir o estresse e relaxar o corpo.

Tenha contato com a família e amigos – mesmo online, conversar com pessoas que confiamos ajuda a reduzir a carga diária.

Mantenha uma rotina saudável – mesmo em casa, continue com a rotina de horários para dormir, se alimentar, trabalhar, etc.

Evite álcool e drogas e comer em excesso para lidar com o estresse – esses recursos só pioram a situação.

Conecte-se com sua fé – a esperança é um dos pontos fundamentais para o restabelecimento emocional. A oração e a conexão com Deus são chaves para alcançar esperança e conforto em meio ao sofrimento.

Seja generoso consigo mesmo e com os outros.

Procure ajuda profissional ao primeiro sinal de estresse emocional – cuide de si mesmo e de quem você ama. Buscar ajuda é sinal de sabedoria e um ato de coragem.


Sheila Cordazzo é doutora em Psicologia.