A última viagem do trem de Salvador


Crônica do escritor Luis Antonio Gomes sobre a despedida do trem do subúrbio que ligava a Calçada a Paripe

 
 

Antes do trem das onze partir da Calçada – sim, quis o destino que fosse o horário das 11h20min, para ficar algo mais poético – eu fiquei impressionado com a quantidade de pessoas tirando fotos, fazendo selfies ao lado do trem e nos vagões.

 

Parecia haver mais gente que o normal. Não sei dizer como era o movimento no dia a dia, fazia muitos anos que eu não andava naquele trem, na verdade essa seria a minha segunda e última viagem.

 

Assim que o trem saiu, após o seu apito de costume, chovia fino. Ouvi algumas pessoas que sussurraram ou gritaram levemente, até influenciadas por um rapaz que filmava e pedia para que as pessoas fizessem cara de ‘alegre’, parecia até um YouTuber. E, de fato, todos saíram sorridentes da estação. Para completar, um senhor que não embarcou, fazia imitações de vários tipos de ‘galos’, que causou mais risos em todos nós, a sua performance foi também registrada no celular do rapaz.

 

Na estação seguinte, Santa Luzia, havia escrito na parede bem grande, pichado, ‘Jesus nos proteja’. E a viagem prosseguiu tranquila, as pessoas continuavam tirando fotos.

 

Chegamos à estação Lobato, onde havia três mulheres sentadas, do outro lado, esperavam o trem no sentido Paripe-Calçada, ventava bastante e conversavam alegremente sem máscara, contrastavam com o cenário dentro do trem em que todos usavam o acessório de proteção contra o coronavírus.

 

Partimos da Estação Lobato, em seguida surgiu uma vista maravilhosa ao lado esquerdo, o mar estava com um azul lindo de se ver e os celulares no ponto para mais fotos na galeria.

 

Uma pequena parte das pessoas estava ali para fazer uma viagem de despedida. Famílias inteiras, algumas delas pela primeira vez e, a grande maioria, que costumava utilizar o meio de transporte, estava dando adeus ao trem de todos os dias.

 

Quando nos aproximamos da ponte Metallica São João, o cenário ficou ainda mais bonito. Aquela curva antes de passar pela ponte permitiu uma visão panorâmica que não valia a pena tirar foto, sob o risco de perder aquelas imagens únicas de um mar com a cor de nublado.

 

Pouco tempo depois, após uma estação que não me lembro o nome, nos deparamos com várias pessoas na praia catando mariscos, uma cena de cinema. Mulheres e homens trabalhando para tirar o seu sustento do mar. E é claro, não podemos esquecer as centenas de barcos de pescadores que enfeitavam as águas.

 

Naquela viagem tudo estava bem, nada poderia tirar o ânimo dos passageiros. E outro detalhe que chamava a atenção era as pessoas do lado de fora, que saudavam a passagem do trem com as mãos em sinal de adeus e algumas até fotografavam.

 

Na estação Periperi, mais uma prova da antiguidade da linha férrea, pintada de amarelo, escrito com uma fonte de letra antiga a palavra ‘Periperi’. Assim que saímos dela, outro momento de alegria para situar como era o estado de espírito da viagem, passamos no túnel e houve uma gritaria eufórica por parte dos passageiros.

 

Nada deixou os passageiros contrariados. Para completar mesmo a viagem com chave de ouro, faltava uma estação para chegar em Paripe. E, exatamente na penúltima em Coutos, o aviso se espalhou no vagão: o trem quebrou. Isso foi para dar mais charme ao trajeto.

 

Ninguém reclamou ou ficou chateado, muito pelo contrário, assim que descemos, um festival de fotos começou a acontecer. Eram as últimas fotos do trem que já deixava saudades.

 

A parada em Coutos serviu para apreciar ainda mais a paisagem, principalmente na hora de atravessar a passarela, que cruza a linha do trem, para passar para o outro lado. Um senhor comentou que o trem quebrou “por que não queria ir embora para dar lugar ao VLT”. E foi nessa hora que aquele aviso colado dentro do trem ecoou mais forte dentro de mim “as atividades do trem serão suspensas em 15/02/2021”.

 

De Paripe, voltei para Estação Calçada. Fiz o bate-volta nas dez estações. Pude perceber o quanto aquele trem era importante para tanta gente, a emoção de alguns contida, mas que nas fotos, nos vídeos, nas conversas que diziam que era a última viagem, ficou um sentimento bonito, a ideia de pertencimento, de que parte da história deles estava indo embora. Confesso que me emocionei e fiquei muito feliz em estar ali com todos para ver pela última vez a hora do trem passar.

 

Professor Luis Antonio Gomes

Escritor e cordelista

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