Perguntamos ao Zé Ramalho o que é um ‘pano de guardar confetes’


A música ícone da MBP “Chão de Giz” bastante popular nacional e internacionalmente criada na geração da década de 70, ganhou espaço no meio musical justamente por ser uma música com várias nuances de simbologias agrestes. A música carrega em si o peso de sentimentos rejeitados. E se você já conseguiu decifrar aqueles jogos de palavras só ouvindo a música, meu caro, pode se considerar um apaixonado nato com fortes dores de cotovelo. Por que a letra se trata de um apaixonado sofrendo por um amor quase impossível de acontecer.

Afinal, o que é o tal do ‘pano de guardar confetes’? O Curta Mais trouxe a resposta, e você já pode até imaginar, confetes, amor envolvido, sentimentos entrelaçados, tudo num balaio só. Mas daí, onde o tal significado tão resguardado na essência da música “Chão de Giz” se esconde? Em relatos feitos pelo próprio cantor, a música foi criada embasada em sua própria história.

Ainda jovem ele se apaixonou por uma mulher mais velha que conheceu no Carnaval de João Pessoa na Paraíba. Ela era casada com um homem da alta sociedade, e jamais largaria um casamento influente por um rapaz “latino americano sem dinheiro no banco”, como diria Belchior. Mas, como todo mundo já sabe esse romance de um amor errôneo teve um fim desastroso. Tendo como consequência, a música poética Chão de Giz, como um bom poeta e compositor que se preze escreveria.

Porém o real significado no pano de guardar confetes é nada mais que balaios ou cestas típicos da cultura popular das costureiras nordestinas, nos quais elas jogam restos de pano, papel, etc. “Aqui, Zé diz que vai jogar as fotos dela nesse tipo de saco e, assim, esquecê-la de vez”. Como quem quer jogar fora todos os sentimentos por um amor mal resolvido.

A história por trás da música

Nosso querido Zé, levado pelo apelido de poeta de Brejo justamento pelo local de nascimento, em Brejo do Cruz na Paraíba. Autor de grandes canções famosas da Mpb, nasceu em 1944 foi criado pelo avô Raimundo (o famoso Avôhai como ele mesmo o chamava) para se tornar médico nos confins do sertão paraibano. Mas o destino quis diferente. O sonhador e disseminador de grandes influências musicais de peso do rock’n roll, abandonou a faculdade de medicina aos 21 anos para se tornar musicista brasileiro, que convenhamos, fez seu nome se tornando um dos melhores cantores e compositores desde os anos setenta até os dias de hoje.

Sua influência veio da literatura de cordel começando com a criação de versos de cordel que por meros devaneios tolos se fez compositor de suas próprias canções. Cantou em bandas inspiradas pela jovem guarda de Roberto Carlos, Renato & Seus Blue Caps, e também pelo rock inglês. Ficou conhecido em 1974 quando uma de suas composições foi introduzida nas canções de um filme de cultura popular nordestina chamado: Nordeste, Cordel, Repente e Canção, da cineasta Tânia Quaresma, que mostrava vários aspectos da arte popular do Nordeste.

Com uma passagem só de ida para o Rio de Janeiro que seu avôhai Raimundo lhe deu, foi atrás da fantasia de ser músico. Participou também na banda de Alceu Valença, mas foi logo adiante em 1977 que lançou seu primeiro álbum solo batizado com seu próprio nome “Zé Ramalho”, de onde surgiu a música Chão de Giz e outras marcantes como. Mas mal sabia ele que, aquele álbum da década de setenta e sete, se arrastaria até os dias de hoje com um grande questionamento sobre suas metáforas contidas nas letras. Além da música (causa um grande amor proibido de carnaval) “Chão de Giz”, houveram outras grandes criações poéticas desse ícone marcadas de histórias cheias de sentimentos, de saudade, de amor e coragem, veracidade, vontade, de paixão que mais parecem um bicho de 7 cabeças.

Uma viagem de cogumelo mudou a sua vida

Em entrevista para Pedro Bial em seu programa “Conversa com Bial” da última sexta feira 4/10 o artista revela a origem e a particularidade de seus grande sucessos. Os sucessos “Avôhai, Chão de Giz, e Vila do Sossego” já estavam praticamente em construção perfeita em sua mente quando decidiu ir tentar a vida na música se mudando para o Rio onde passou dificuldade. E foi exatamente nesse momento que surgiu a música “Garoto de Aluguel”. “Eram algumas amigas, algumas pessoas que eu conhecia em porta de teatro, lá no Rio de Janeiro, que viam minha situação e de mais alguns colegas, e passávamos a noite juntos e deixavam um valor no dia seguinte para um café da manhã e isso me inspirou nessa canção que é muito gravada”, afirma o cantor.

Assista o vídeo da entrevista:

Ainda na faculdade com 21 anos ele participava de um projeto de fungos que estudavam alucinógenos. A música Avôhai foi criada em uma dessas viagens alucinógenas da vida do então estudante de medicina. “Na música, tem um trecho que eu estava descrevendo o que eu estava vendo: ‘Que transparente cortina ao meu redor’. Era como se fosse a aurora boreal. Foi uma coisa muito forte para eu viver isso. Ao voltar para casa, fiquei pensando durante dias nessas sensações, e começou a me chegar a letra toda de uma vez só. Peguei o violão e, assim, em casa, eu já sabia para onde ia a mão. Foi a única vez que isso aconteceu comigo.”

A vida passou, e o gigante da Mpb conseguiu vencer seus obstáculos, e gravar a canção “Avôhai” na mesma gravadora do Roberto Carlos na época. Comentou também sobre o grande projeto que gerou mais três álbuns junto de Alceu Valença, Elba Ramalho, e Geraldo Azevedo. Outra grande parceria que deu muito certo foi com Chitãozinho e Xororó em “Sinônimos”. “Foram tempos maravilhosos” afirma. E aí, bora lá conferir essas grandes histórias poéticas cantadas na voz e violão desse grande cantor? Acesse o link e garanta já seu ingresso para essa aventura pra lá de apaixonante.