Léo Pinheiro defende Lava Jato fragilizada e acusação contra Lula


Em plena crise de credibilidade da força-tarefa de Curitiba e do ex-juiz Sergio Moro na condução da Operação Lava Jato, uma carta de Leo Pinheiro – o incriminador de Lula – estampa as manchetes da Folha de S.Paulo, nesta quinta-feira (04).

“Delator de Lula nega pressão de procuradores da Lava Jato e diz que nunca sofreu coação”, é o título da reportagem principal. Nela, um depoimento emocionado do ex-presidente da OAS, reafirmando as acusações feitas contra o ex-presidente Lula no depoimento a Moro e negando que houve pressão de Deltan Dallagnol e da equipe de procuradores.

Nas reportagens publicadas pela Folha, não há a explicação de como a carta foi obtida -se algum jornalista solicitou uma posição do réu confesso, ou se houve alguma orientação dos próprios procuradores e investigadores para as palavras que tentam preservar a imagem da força-tarefa da Lava Jato, ou ainda se é uma estratégia da defesa do acusado.

Dando a entender de que o movimento foi expontâneo, o jornal deixa claro que se trata de uma resposta do empreiteiro frente às mensagens divulgadas pelo The Intercept Brasil, que revelam as tratativas dos procuradores e de Moro com o objetivo de condenar Lula [leia mais aqui].

“Léo Pinheiro decidiu enviar a carta depois de reportagem da Folha, no último domingo (30), produzida a partir de análise de mensagens obtidas pelo site The Intercept Brasil, ter mostrado que o empreiteiro foi tratado com desconfiança pelos procuradores durante quase todo o tempo em que se dispôs a colaborar com as investigações”, publica.

GGN mostrou ao longo de diversas reportagens que as delações de Leo Pinheiro só foram consideradas pela equipe de investigadores após o próprio empreiteiro modificar o teor de suas acusações sobre o triplex do Guarujá. As mensagens trazidas à tona mais recentemente pelo The Intercept confirmam que os procuradores tratavam Pinheiro com desconfiança.

No papel escrito e enviado à Folha, Léo Pinheiro faz um esforço para garantir que as suas acusações não fariam parte do jogo de interesses e tratativas da Lava Jato para condenar Lula, conforme o The Intercept revelou nas últimas semanas.

“A minha opção pela colaboração premiada se deu em meados de 2016, quando estava em liberdade, e não preso pela operação Lava Jato. Assim, não optei pela delação por pressão das autoridades, mas sim como uma forma de passar a limpo erros que cometi ao longo da minha vida. Também afirmo categoricamente que nunca mudei ou criei versão e nunca fui ameaçado ou pressionado pela Polícia Federal ou Ministério Público Federal”, diz trecho da carta.

Até então, as palavras de Pinheiro denotam uma tentativa de se auto preservar, uma vez que ele permanece preso – conforme inicia na carta, há 3 anos e 7 meses -. Entretanto, a delação do empreiteiro foi peça-chave para encarcerar Lula na acusação dos procuradores e aceita por Sergio Moro.

E são nos parágrafos seguintes que a motivação do empreiteiro para enviar a carta é levantada: “O material que comprova a minha fala está no processo do triplex e foi todo apreendido pela Operação Lava Jato na minha residência, na sede da empresa OAS, na residência do ex-presidente Lula, na sede do Instituto Lula e na sede do Bancoop, o que quer dizer que não há como eu, Léo Pinheiro, ter apresentado versões distintas, já que o material probatório é bem anterior à decretação da minha prisão em novembro de 2014”.

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Neste momento, Leo Pinheiro sai dos elementos de auto-defesa para sustentar argumentos a favor de toda a Operação em si contra Lula: “Além disso, plantas das reformas do triplex, projetos deste apartamento e do sítio, bem como contratos, foram apreendidos na própria residência do ex-presidente, cabendo à minha pessoa tão somente contar a verdade do que tinha se passado”. Em seguida, o empreiteiro chega a listar em 5 pontos “as provas” do processo contra o ex-presidente, que segundo descreveu, “são bem claras e contundentes”.

Conforme o GGN havia divulgado no período, a primeira delação de Pinheiro foi suspensa pela Procuradoria-Geral da Republica (PGR) no dia 22 de agosto de 2016. Um novo depoimento foi prestado somente 8 meses depois: 20 de abril de 2017, que foi a declaração ao ex-juiz Sergio Moro.

A diferença do primeiro [relembre aqui] para o segundo depoimento [e aqui] está no acréscimo de algumas informações que vieram a sustentar depois a condenação de Lula: na última, Pinheiro passa a tratar o triplex do Guarujá como propina de todo o esquema, narra a existência de uma conta geral de propina e que o ex-presidente chegou a orientar que as provas fossem destruídas.

 

Abaixo, leia a integra da carta enviada a Folha de S.Paulo:

Estou preso há 3 anos e 7 meses, por ter praticado crimes que fui responsável. Chegou o momento de falar um pouco sobre o noticiário a meu respeito.

A matéria veiculada nesta Folha de S.Paulo, sob o título “Lava a Jato via com descrédito empreiteiro que acusou Lula”, no último domingo, dia 30 de junho de 2019, necessita de alguns esclarecimentos, todos eles amparados em provas e fatos.

A minha opção pela colaboração premiada se deu em meados de 2016, quando estava em liberdade, e não preso pela operação Lava Jato. Assim, não optei pela delação por pressão das autoridades, mas sim como uma forma de passar a limpo erros que cometi ao longo da minha vida. Também afirmo categoricamente que nunca mudei ou criei versão e nunca fui ameaçado ou pressionado pela Polícia Federal ou Ministério Público Federal.

A primeira vez que fui ouvido por uma autoridade sobre o caso denominado como tríplex foi no dia 20 de abril de 2017, perante o juiz federal Sergio Moro, durante meu interrogatório prestado na ação penal referente ao tema.

Na oportunidade, esclareci que o apartamento nunca tinha sido colocado à venda porque o ex-presidente Lula era o seu real proprietário e as reformas executadas foram realizadas seguindo suas orientações e de seus familiares. O ex-presidente e sua família foram ao tríplex e solicitaram reformas como a construção de um quarto, mudanças na área da piscina etc. Tudo devidamente testemunhado por funcionários da empresa que acompanharam a visita e prestaram testemunhos sobre isso.

Afirmei ainda que os valores gastos pela OAS foram devidamente contabilizados e descontados da propina devida pela empresa ao Partido dos Trabalhadores em obras da Petrobras, tudo com anuência do seu maior líder partidário. A conta corrente com o PT chegou a aproximadamente R$ 80 milhões, por isso havia um obrigatório encontro de contas com o sr. João Vaccari.

O meu interrogatório foi confirmado por provas robustas que o Poder Judiciário, em três instâncias, entendeu como material probatório consistente para condenação de todos os envolvidos.

O material que comprova a minha fala está no processo do tríplex e foi todo apreendido pela Operação Lava Jato na minha residência, na sede da empresa OAS, na residência do ex-presidente Lula, na sede do Instituto Lula e na sede do Bancoop, o que quer dizer que não há como eu, Léo Pinheiro, ter apresentado versões distintas, já que o material probatório é bem anterior à decretação da minha prisão em novembro de 20149. Além disso, plantas das reformas do tríplex, projetos deste apartamento e do sítio, bem como contratos, foram apreendidos na própria residência do ex-presidente, cabendo à minha pessoa tão somente contar a verdade do que tinha se passado. O próprio ex-presidente Lula, em seu interrogatório no mesmo caso, confirmou que voltamos no seu carro após nossa visita ao tríplex no Guarujá.

As provas que estão presentes no processo são bem claras e contundentes, tais como:

  1. Documentos que indicam o ex-presidente e sua família como proprietário do imóvel antes mesmo de a OAS assumir o empreendimento, apreendidos na residência do ex-presidente Lula e na sede da Bancoop;
  2. Emails internos da OAS que demonstram a necessidade de “atenção especial” com a cobertura 164, bem como os projetos da obra;
  3. Registros dos meus encontros com Paulo Okamotto, João Vaccari Neto e o ex-presidente Lula, em minha agenda do celular, no Guarujá, no Instituto Lula e na residência do ex-presidente em São Bernardo do Campo;
  4. Mensagens sobre encontro de contas com João Vaccari;
  5. Depoimentos de pessoas que não estão vinculadas à OAS e que trabalharam nas obras da reforma, bem como de funcionários do prédio Solaris e também dos demais funcionários da empresa envolvidos na obra da cobertura.

Neste mesmo período, surgiu um novo pedido do ex-presidente Lula, uma reforma no seu sítio.

Fui ao sítio com o ex-presidente ver e ouvir os pedidos de reforma e reparos, visita que foi fotografada e testemunhada pelo diretor da empresa designado para supervisionar as obras no sítio e no tríplex. Me recordo que fui em um sábado até o apartamento do ex-presidente, em São Bernardo do Campo, mostrei os projetos do sítio e do tríplex para que fossem aprovados. Esta visita consta dos registros da minha agenda e em mensagens, além de ter sido confirmada no processo judicial pelo testemunho do diretor que me acompanhou.

Com o aval do ex-presidente Lula e seus familiares, as obras começaram. O sigilo era uma especial preocupação nos trabalhos.

As obras do sítio e no tríplex tinham custos relevantes e eram devidamente contabilizadas. Documentos internos da OAS provaram no processo que as despesas das duas obras eram lançadas em centros de custos próprios, com uma referência ao ex-presidente (Zeca Pagodinho) e as divisões “praia” e “sítio”.

Preciso dizer que as reformas não foram um presente. Os empreendimentos da Bancoop assumidos pela OAS apresentavam grandes passivos ocultos, com impostos, encargos que não deveriam ser assumidos pela OAS. Em paralelo, João Vaccari cobrava propina de cada contrato entre OAS e Petrobras. Combinei com Vaccari que todos os gastos do tríplex e sítio seriam descontados da propina. Repito, esse encontro de contas está provado por uma mensagem minha trocada na época dos fatos, devidamente juntada no processo e ainda pelo depoimento do diretor da empresa.

Tenho consciência de que minha confissão foi considerada no processo que condenou o ex-presidente Lula, assim como as minhas provas que apresentei espontaneamente. Não sou mentiroso nem vítima de coação alguma. A credibilidade do meu relato deve ser avaliada no contexto de testemunhos e documentos.

Meu compromisso com a verdade é irrestrito e total, o que fiz e faço mediante a elucidação dos fatos ilícitos que eu pratiquei ou que eu tenha tomado conhecimento é sempre respaldado com provas suficientes e firmes dos acontecimentos.

Trata-se de um caminho sem volta, iniciado em 2016 e apresentado neste caso do tríplex, bem como um diversos outros interrogatórios que prestei, como no caso do sítio de Atibaia.

Os fatos por mim retratados ao Poder Judiciário foram feitos de maneira espontânea e voluntária, sem qualquer benefício prévio pactuado, onde, inclusive, abri mão do meu direito constitucional ao silêncio.

Curitiba, 02 de julho de 2019. Com informações do GGN.