Janaína fala de um Interior do nosso Interior


 

Janaína faz parte do Território Portal do Sertão, com outros colegas, todos com o objetivo de resgatar e fazer aflorar as culturas que enriquecem a Bahia.

 

Por Janaína Visitação: São 416 municípios no interior da Bahia que num processo histórico, político e geográfico, e por questões práticas, tiveram suas áreas delimitadas. Mas, a cultura, aquela força que nos transforma em seres sociais, ultrapassa essas linhas desenhadas num mapa. Os limites geográficos não conseguem ser fronteira para as semelhanças que temos com os nossos vizinhos. Falamos, comemos, vivemos e andamos em solos que se assemelham.  Estamos e somos o interior da Bahia. Somos muitos e diversos, de pequenos municípios de vida pacata à grandes cidades com pólos industriais e assim nos completamos e formamos essa lindeza de estado que é a Bahia.

Transformamos barreiras em pontes quando entendemos que somos um território. Eu pertenço ao Portal do Sertão, mas poderia ser da Chapada Diamantina e quero ser do Vale do Jiquiriça. O território é uma instância maior de pertencimento onde eu caminho sem saber em que cidade estou, mas sabendo qual cultura estou vivendo.

Andar pelo interior da Bahia me rendeu as melhores histórias e lições e a cada nova cidade que conheço me vem um sentimento de que poderia ser ali, que aquela cultura também está dentro de mim. Foi em Lafaiete Coutinho, durante o “Diálogos do Fórum de Cultura”, que conheci o Vale do Jiquiriça, e naquele momento,mais uma vez, vi na simplicidade das coisas o quanto o interior ensina e tive o prazer de aprender vendo amigos do território com uma imensa vontade de fazer a cultura (re)viver e com orgulho de pertencer àquele espaço.

Marília Sampaio (Lafaiete Coutinho), Fabio Mendes (Planaltino), Walter Salles (Maracas) e Edmar Vieira (Maracas) me mostraram um pouco do que é o Vale do Jiquiriça e a relevância de seus movimentos culturais. Juntos, esses amigos articulam e fortalecem a cultura da região com um sentimento de que esse bem precioso vem a todos que tem a sensibilidade no olhar, democraticamente. E mesmo com tantas adversidades, eles estão lá, acreditando que, apesar dos golpes que nosso país tem recebido, ninguém vai conseguir arrancar o que temos de melhor no interior do nosso interior.

Faço votos que a luta dos meus amigos inspire outras pessoas. E sei que outros tantos, que não tive a oportunidade de conhecer, fazem o movimento acontecer nas pequenas e grandes cidades do interior. Continuem acreditando na importância do seu trabalho como artista, banda, grupo, produtor cultural entre outros, que o sentimento de coletivo possa uni-los nesse terreno lindo e próspero.

Lembro também da importância das políticas públicas para a manutenção desse trabalho. A territorialização da cultura é umapauta que a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia vem desenvolvendo desde 2012, dedicando espaços para o debate e fomentando ações de afirmação e preservação da cultura dos 27 territórios culturais da Bahia. São muitas as iniciativas, mas, apesar dos esforços coletivos e individuais ainda temos muito trabalho pela frente.

“Se queres ser universal começa por pintar a tua aldeia” – LievTolstoi