Inteligência americana previu com precisão o coronavírus, mas ninguém fez nada


De acordo com avaliação de um relatório do Conselho Nacional de Inteligência dos EUA (NIC), feita em 2008, uma doença respiratória “altamente transmissível” e “virulenta” para a qual não há cura pode incitar uma pandemia global. A previsão foi precisa, mas ninguém estava preparado.

O relatório alertou que esta nova doença poderia ser “extremamente contagiosa” e que “não haveria tratamento adequado” disponível no momento da sua disseminação, levando à pandemia mundial. Sugeriu também que cepas altamente patogênicas da gripe aviária como o H5NI eram “prováveis candidatos”, mas um “coronavírus ou outras cepas de influenza” poderiam ter o mesmo potencial.

O surto, diz o relatório, começaria em uma área de alta densidade populacional, onde humanos e animais vivem em locais próximos, dando à China um exemplo específico. Diz-se que o vírus Covid-19 se originou em um mercado úmido em Wuhan, onde são vendidos animais vivos e mortos e onde os padrões de higiene são ruins.

Uma pandemia também foi citada em um relatório separado da NIC de 2004 como algo que poderia “inviabilizar a globalização”, observando que especialistas acreditam que esse evento é “apenas uma questão de tempo”.

O relatório da NIC, no entanto, não foi o único. Em 2005, o especialista em doenças infecciosas Michael Osterholm afirmou que “o tempo está se esgotando” para se preparar para a próxima pandemia e que era hora de agir. Em seu livro de 2017, ‘Deadimiest Enemy: Our War Against Killer Germs’, ele tentou soar o alarme contra ameaças emergentes e estabeleceu uma estratégia de nove pontos para proteger as populações.

O especialista em influenza Robert Webster também alertou em seu livro de 2018, “Flu Hunter”, da “enorme perturbação social e custo econômico substancial” que poderia resultar de outra pandemia mundial.

Verba cortada por Trump

Já de dentro do governo, Dennis Carroll liderou um programa da U.S. National Security and Economic Prosperity (USAID) chamado PREDICT, que liderava a pesquisa de vírus em animais que podiam ser transmitidos às pessoas. Ele defendeu a causa do investimento em pesquisas sobre a vida selvagem, não apenas o gado. Hoje, acredita-se que o novo coronavírus tenha passado de morcegos para humanos. A PREDICT perdeu seu financiamento em 2019. Agora, o governo de Donald Trump está tentando reativar o programa.

Previsões na Alemanha também

Já uma análise de risco do governo alemão de 2012 também destacou a ameaça. Em sua simulação pandêmica, o novo vírus se espalharia rapidamente para sobrecarregar os sistemas de saúde e as unidades de terapia intensiva. Como resultado, afirmou que muitos pacientes seriam atendidos em hospitais de emergência – exatamente o cenário que estamos vendo acontecer hoje. Como o relatório dos EUA, ele também previu que o vírus começaria na Ásia – e a transmissão também seria de animais selvagens para humanos.

O relatório previa que a propagação do vírus seria retardada por “medidas antiepidêmicas”, incluindo quarentena, rastreamento de contatos e auto isolamento – além do fechamento e proibição de escolas em grandes reuniões.

O relatório do governo alemão também sugeriu que o vírus se espalharia pelo país por um período de três anos antes que a vacina se tornasse disponível. Ele assumiu 7,5 milhões de mortes com base em uma taxa de mortalidade extremamente alta de 10%. Até o momento, ainda não sabemos a taxa geral de mortalidade do Covid-19. Por várias razões, variou de mais de 7% na Itália a 1,6% na Alemanha. A Organização Mundial da Saúde previu uma taxa média global de mortes de 3,4%.

Acontecerá com os outros

As citações do relatório do Conselho Nacional de Inteligência (NIC) foram publicadas em um livro de 2009 pelo historiador e filósofo francês Alexandre Adler. Na época, ele comentou ser mais fácil presumir que essas coisas vão “acontecer com os outros”, mas nunca com a gente. “E, somente quando as pessoas percebem que estão todas no mesmo barco afundando é que poderão começar a progredir”, afirmou.

As informações são da RT.com