Engenheiros avisaram Petrobras que modelo de gestão era suicida, mas presidente ignorou. Por Joaquim de Carvalho do DCM


Plataforma. Foto: Agência Petrobras

A Associação dos Engenheiros da Petrobras alertou há mais de um ano o presidente da empresa, Roberto Castello Branco, de que a política conduzida por ele era equivocada, e expunha a companhia a turbulências internacionais.

A turbulência veio hoje. As ações da Petrobras desabaram quase 30%. Com isso, o valor de mercado da estatal passou de R$ 306,96 bilhões para R$ 215,84 bilhões, uma perda de valor de cerca de R$ 91,12 bilhões.

Se seguisse outro modelo de negócio, mais parecido com os do governo de Lula e Dilma, a maior empresa brasileira sofreria com a decisão da Arábia Saudita de aumentar a produção e baixar o preço do petróleo, mas não na mesma proporção.

Na carta enviada a Roberto Castello Branco, a Associação dos Engenheiros entregou um estudo que demonstra a necessidade da Petrobras ter controle sobre o refino, transporte e distribuição do petróleo e de seus derivados.

“Quanto menor o grau de integração, maior a exposição de uma petroleira a choques de oferta, que derrubam o preço, destruindo a lucratividade da atividade de exploração e produção (E&P)”, diz o documento.

Isso ocorreu nos anos de 2015, 2016 e no primeiro semestre de 2017, quando o preço do petróleo se manteve em níveis “moderados” (a expressão é deles), mas a empresa compensou o prejuízo com os “lucros extraordinários do refino, transporte e comercialização”.

“A privatização de refinarias, terminais, dutos e distribuidora traz prejuízos muito mais graves à resiliência e sobrevivência da Petrobrás, na conjuntura de preços relativamente moderados de petróleo, do que presumíveis benefícios pela redução dos gastos com juros decorrentes da antecipação da redução da sua dívida”, anotam os engenheiros.

A distribuição já está privatizada, mas as refinarias ainda não. Porém elas operam abaixo de sua capacidade — cerca de 70%, segundo a associação.

Em março de 2019, quando a carta foi entregue a Castello Branco, a Petrobras apresentava perda de 20% do mercado nacional de diesel para refinarias dos Estados Unidos localizadas no Golfo do México.

Isso porque a empresa começou a praticar preços acima da paridade de importação (PPI).

Segundo a Aepex, para manter o mercado, a Petrobras poderia praticar preços abaixo da paridade de importação e, ainda assim, continuaria lucrativa. E mais: o preço do combustível para o consumidor seria menor.

A Colômbia, que não é nenhum exemplo de estado intervencionista (pelo contrário), partiu por esse caminho e se deu bem.

A estatal Ecopetrol atua de forma integrada e aumentou seus lucros em 2016, quando, pressionada por uma greve de caminhoneiros, passou a praticar preços abaixo da PPI.

O valor de referência para o mercado interno passou a ser o de exportação.

“Dessa forma, os preços praticados no mercado interno são inferiores aos praticados pelas importadoras de derivados, assegurando mercado para Ecopetrol e favorecendo os consumidores de combustíveis e a economia colombiana”, destacam os engenheiros.

A privatização de ativos da Petrobras é justificada pelo argumento de que gerará caixa para a redução da dívida. Com dívida mais baixa, a empresa economizaria no pagamento de juros e, consequentemente, teria lucros maiores, e poderia investir mais.

Leia matéria completa no DCM