Enem tem o menor número de inscritos em mais de uma década


“A geração Z não quer as mesmas coisas que queria a geração que está neste momento planejando a escola. Precisamos trazer os jovens para a discussão. E garantir que todos tenham voz – não apenas os mais extrovertidos. (…)”

Enem menor número inscritos mais década explica governo bolsonaro

Paula Adamo Idoeta, BBC

Quando falava sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) com seus alunos adolescentes, a professora Márcia Maia muitas vezes notava a faísca de interesse deles em prestar a prova que, hoje, é a principal porta de entrada para a educação universitária no Brasil.

Mas ela percebia que parte dos alunos de baixa renda não se sentia pertencente ao universo do ensino superior ou que não tinha repertório o bastante.

Ela então criou um projeto de leitura para seus alunos, dedicado à redação do Enem — um dos pontos mais temidos para muitos estudantes que se preparam para o exame.

Maia usa como motivador sua própria história de vida, de estudante da zona rural baiana que passou na faculdade e ascendeu por meio da educação. “Sempre digo a eles que sou resultado de ter acreditado em estudar, algo que me situa em qualquer lugar que eu for“, conta.

Os alunos do grupo de estudos de Maia passaram a escrever uma redação por semana, que ela corrigia em detalhes, para ensinar-lhes a estrutura do texto exigida pelo Enem.

No ano passado, com a pandemia, o esforço precisou ser redobrado para manter o grupo engajado, mesmo sem as sessões presenciais.

O volume de atenção caiu, os alunos ficaram mais dispersos”, relata Maia. “Fizemos aulões, lives de redação, mas 2020 foi um ano assustador. Tivemos uma abstenção histórica, porque o aluno sabia o quanto estava desconectado de tudo.”

Maia celebra os estudantes que persistiram, prestaram o Enem e conseguiram vagas em universidades. Mas lamenta o “abismo que aumentou em quilômetros de profundidade” entre os jovens que cursam o ensino privado e os que cursam o ensino público no Brasil.

“Para o aluno que já vivencia a exclusão, que não tem dinheiro para pagar cursinho e se vê solto nesse período (de fechamento das escolas), o que acontece?”

Queda no número de inscritos no Enem

O relato de Márcia Maia coincide com o de estudantes, professores, ativistas e especialistas em educação ouvidos pela BBC a respeito de uma perigosa desconexão dos jovens com a escola e com o Enem — e uma aparente descrença, entre uma parcela crescente dos estudantes, no poder dos estudos como forma de ascensão social.

Um exemplo disso é o número de inscritos (3,1 milhões) no Enem 2021, índice mais baixo dos últimos 16 anos. O exame chegou a ter 8,7 milhões de inscritos em 2014.

O desalento nessa faixa etária se reflete em outros dados.

Segundo relatório do Unicef (braço da ONU para a infância), em novembro do ano passado, havia cerca de 1,5 milhão de jovens de 15 a 17 anos sem qualquer tipo de acesso à educação no Brasil.

Em maio deste ano, pesquisa do Datafolha para fundações educacionais apontou que 46% dos pais de 1,5 mil alunos dos ensinos fundamental e médio entrevistados diziam não ver motivação nos seus filhos com os estudos.

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