De olho em herança de R$ 800 mil, madrasta envenena criança de 11 anos


Madrasta é presa por matar criança de 11 anos. Sem saber, criança tomou doses diárias de veneno durante dois meses e morreu aos poucos

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Madrasta envenenou Mirella (imagem) aos poucos para não deixar suspeitas

Mirella Poliane Chue de Oliveira, de 11 anos, faleceu no dia 14 de junho em Cuiabá (MT), mas a sua morte só foi esclarecida nesta segunda-feira, dia 9 de setembro.

Investigadores da Delegacia Especializada de Defesa da Criança e do Adolescente (Deddica) concluíram que a menina de 11 anos foi envenenada pela madrasta, Jaira Gonçalves de Arruda, de 42 anos.

A mulher cometeu o crime para conseguir a herança da enteada, de R$ 800 mil. A vítima tinha direito a uma indenização pela morte da mãe durante o parto, por erro médico em um hospital de Cuiabá. A ação foi movida pelos avós maternos da criança.

Em 2019, após 10 anos, o processo foi encerrado, e o hospital foi condenado a pagar uma indenização de R$ 800 mil à família, já descontando os honorários advocatícios.

Parte do dinheiro ficaria depositada em uma conta para a menina movimentar na idade adulta. A Justiça autorizou que fosse usada uma pequena parte desse fundo para despesas da criança, mas a maior quantia só poderia ser acessada aos 24 anos. O dinheiro começou a ser pago neste ano.

Até 2018, a menina era criada pelos avós paternos. Em 2017, a avó paterna morreu e, no ano seguinte, o avô também faleceu. Então, a garota passou a ser criada pelo pai e pela madrasta, Jaira Gonçalves de Arruda. A partir daí, a mulher deu início ao plano de matar a criança para ficar com a indenização, segundo investigadores.

Envenenada aos poucos

A investigação apontou que a madrasta deu doses diárias de veneno para a menina durante dois meses. Uma substância de venda proibida foi ministrada gota a gota, entre abril e junho deste ano.

Mirella Poliane morreu após ser internada em um hospital particular da capital mato-grossense. Inicialmente, houve suspeita de meningite, bem como de abuso sexual, mas um exame de necrópsia no Instituto de Medicina Legal (IML), da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec), descartou estas hipóteses.

O laudo pericial, até aquele momento, apontava como morte por causa indeterminada. Depois, através de exames, foram detectadas duas substâncias no sangue da vítima: uma delas veneno que provoca intoxicação crônica ou aguda e a morte.

Segundo a polícia, a substância não é encontrada em medicamentos, portanto, a ingestão por humanos somente pode ocorrer de forma criminosa. Os sintomas da ingestão são visão borrada, tosse, vômito, cólica, diarreia, tremores, confusão mental e convulsões.

A menina era envenenada aos poucos para não levantar suspeitas. Todas as vezes que a menina passava mal era levada ao hospital, onde ficava internada de três a sete dias e, depois, melhorava. Ao retornar para casa, ela voltava a adoecer.

Ao todo, foram nove internações em dois meses. Ela recebia diagnósticos de infecção, pneumonia e até meningite. Na última vez em que foi parar no hospital, a menina já chegou morta. O hospital não quis declarar o óbito, mas suspeitava ser meningite.

Avó materna

A avó materna está inconsolável com a informação de que a neta foi assassinada pela madrasta. “Lutei dez anos pela morte da minha filha Poliane [Mãe de Mirella]. Quando ganhei para dar um futuro melhor para minha neta, acontece isso”, lamentou a avó Claudina Chue Marques.

A família materna de Mirella agora cobra Justiça e pede a responsabilização do pai como cúmplice. “Ele sendo marido dela, como pai, ele tinha que chamar a avó materna, porque somos responsáveis. Ele não teve a capacidade, ele não é um homem de palavra, não é um homem de caráter, não teria que ter deixado a responsabilidade para ela, obrigado ela chamar a mulher de mãe. Ele foi irresponsável, um pai desnaturado”, diz a avó.

Claudina contou que sempre tentou visitar a neta no hospital durante as internações da menina, mas sempre era impedida. Após muita insistência, ela conseguiu uma vez. “Fui ao Juizado para tentar visitar ela no hospital. Eles estavam escondendo ela de mim. Era estranho porque não deixavam a gente chegar perto”, lembra.