De apaziguador, Geisel passa a comandante do extermínio da ditadura


Após a análise geral do GGN sobre estes arquivos, a série “Relações Internacionais dos Estados Unidos” revela sistemática comunicação avançada dos EUA em governos ditatoriais pelo mundo e táticas de violações de direitos humanos
As linhas da história brasileira devem mudar a partir de agora. Denominado até então como o apaziguador da ditadura do regime militar no Brasil, o general Ernesto Geisel, que esteve ao mando entre 1974 e 1979, ordenou o extermínio e a tortura um mês após assumir o país, quando decidiu com o então diretor do Serviço Nacional de Informações (SNI), general João Baptista Figueiredo, a tática para a manutenção das violações de direitos humanos.
Segundo a apuração do GGN nos arquivos da CIA, os documentos foram abertos publicamente pelo Departado de Estado Americano em 2015, mas a boa parte deles publicados em formato de série em 2017, com volumes divididos em categorias e governos norte-americanos, desde a gestão de Richard Nixon a Gerald Ford. Outros nove arquivos foram divulgados este ano, sobre relações internacionais pelo mundo. E há o planejamento para novas publicações neste e nos próximos anos.
São dezenas de volumes que expõe, detalhamente, os relatórios da CIA, feitos mensal ou anualmente, com a ajuda de embaixadores dos Estados Unidos nos países e informes de reuniões. As transcrições destes encontros e a comunicação por correspondência também foram divulgados na mesma série.
Mas foi um, em especial, que chamou a atenção da imprensa brasileira nesta semana. O pesquisador da FGV, Matias Spektor, divulgou em suas redes sociais que a leitura de determinado arquivo das documentações da CIA “é o mais pertubador” que ele já havia lido em 20 anos de pesquisa.
“Recém-empossado, Geisel autoriza a continuação da política de assassinatos do regime, mas exige ao Centro de Informações do Exército a autorização prévia do próprio Palácio do Planalto”, informou Spektor, no Twitter, com o link para a publicação.
Trata-se de uma pequena porção de todas as revelações da CIA desde 2015, que, aos poucos, vão saindo da escuridão dos arquivos das ditaduras pelo mundo. Após a análise geral do GGNsobre estes arquivos, a série “Relações Internacionais dos Estados Unidos” revela um cenário, como um todo, de uma sistemática comunicação avançada e parcerias de governos ditatoriais com o setor de inteligência norte-americano.
Não se trata, apenas, de compartilhamento bilateral de informações entre os países, com consecutivas graves violações de direitos humanos. Mas uma grande organização esquematizada, com acompanhamento e fiscalização assíduos, e petições dos Estados Unidos sobre estes governos. Não seguir tais demandas dos EUA, vistas como obrigações por estes países, implicava em medidas econômicas, com o fechamento de relações comerciais, por exemplo.
Para se ter uma ideia do conteúdo bibliográfico do material divulgado pela CIA, o pequeno trecho exposto pelo pesquisador gerou repercussão em todos os jornais do país. De abrandador da ditadura do regime militar, o general Ernesto Geisel aparece como o comandante do extermínio e da tortura no período.
Os quatro parágrafos divulgados pela CIA são trechos do memorando que relata o encontro entre Geisel, o então chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), João Batista Figueiredo, e os generais Milton Tavares de Souza e Confúcio Danton de Paula Avelino, então chefes do Centro de Inteligência do Exército (CIE).
Era o primeiro mês do governo Geisel, e o general Milton, que comandava o Centro de Inteligência durante o comando de Emilio Garrastazu Médici, “delineou o trabalho da CIE contra o alvo subversivo interno”. “Ele enfatizou que o Brasil não pode ignorar a ameaça subversiva e terrorista, e disse que métodos extra-legais devem continuar a ser empregados contra subversivos perigosos. A este respeito, o General Milton disse que cerca de 104 pessoas nesta categoria foram sumariamente executadas pela CIE durante o ano passado, aproximadamente”.
Os métodos “extra-legais” eram as torturas, execuções e graves violações de direitos humanos. As 104 pessoas foram mortas em decorrência dessas violações no último ano do governo Médici.
“Figueiredo apoiou essa política e insistiu em sua continuidade”, trouxe o memorando. Mas em resposta a isso, Geisel inicialmente “comentou sobre a gravidade e os aspectos potencialmente prejudiciais desta política, disse que queria refletir sobre o assunto durante o fim de semana antes de chegar a qualquer decisão sobre se ele deve continuar”.
A decisão do então presidente ditador foi de “que a política deveria continuar, mas que muito cuidado deveria ser tomado para assegurar que apenas subversivos perigosos fossem executados”. E iniciou-se uma política de execuções, em que os alvos foram consultados diretamente e antecipadamente pelo então mandatário.
“O Presidente e o General Figueiredo concordaram que, quando a CIE prender uma pessoa que possa se enquadrar nessa categoria, o chefe da CIE consultará o General Figueiredo, cuja aprovação deve ser dada antes que a pessoa seja executada. O Presidente e o General Figueiredo também concordaram que a CIE deve dedicar quase todo o seu esforço à subversão interna, e que o esforço geral da CIE será coordenado pelo General Figueiredo”, concluiu o memorando.
O documento foi retirado do Escritório do diretor de inteligência da Cia, no setor “Assunto dos Arquivos: Job 80M01048A, Caixa 1, Pasta 29: B – 10: Brasil. Segredo”.
Em reação a essa divulgação, o advogado Pedro Dallari, que foi o último coordenador da Comissão Nacional da Verdade (CNV), disse que se tratava de um documetno “estarrecedor”, “porque descreve com minúcia uma conversa que evidencia práticas abjetas e que um presidente da República com sua equipe tratou do extermínio de seres humanos”, disse ao G1.
“O documento apenas comprova aquilo que a Comissão da Verdade já havia apurado e consta no relatório. As graves violações foram conduzidas pelos governos militares. Foi uma política estabelecida e conduzida pelos gabinetes presidenciais”, continuou, ensejando que as Forças Armadas devem reconhecer “a responsabilidade institucional pelo que houve no passado”.
“As Forças Armadas têm que vir a público para dizer: ‘Isso aconteceu’. Têm que superar a argumentação que foram casos isolados e sem coordenação. Têm que vir à luz para reconhecer que ocorreu, não deveria ter ocorrido e não vai mais ocorrer”, concluiu.
Ainda sobre os trabalhos da Comissão da Verdade, na data de hoje relacionados à revelação da mensagem, foram 89 os executados ou desaparecidos por motivos políticos, segundo o relatório da CNV, que se enquadrariam então nessa “categoria” de alvos determinados pelo governo do general Ernesto Geisel. Fonte GGN.