Cruzeiro em crise: Salários atrasados e problemas internos seguem causando saídas precoces de jogadores talentosos


Vitor Eudes, mais um jovem que deixa o Cruzeiro. Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro

Assim como os atleticanos, os torcedores do Cruzeiro reclamam que o time não revela nenhum grande nome oriundo das categorias de base nos últimos anos. Mesmo atletas que aparentavam ser indiscutíveis, como Cacá, terminaram a passagem pelo clube mineiro em baixa e deixaram a equipe por um valor irrisório. É certo que os maiores times de BH possuem problemas para promover destaques, mas a situação cruzeirense é ainda pior.

Por causa da quantidade preocupante de salários atrasados e devido aos problemas internos da equipe azul celeste, alguns jogadores talentosos seguem deixando o Cruzeiro de forma precoce. Além do ambiente ruim e da presença na Série B, a falta de organização não é atrativa para estas promessas e o caminho ideal para eles é deixar a Raposa. E um dos grandes problemas é a forma que estes atletas deixaram o Cruzeiro nos últimos anos: sem custos ou em transferências inexplicáveis.

A última saída

Nesta quarta-feira, 14, o Cruzeiro fez um acordo com Vitor Eudes e o jovem goleiro deixou a Toca da Raposa de forma definitiva. Após ser sondado pelo futebol português, o arqueiro de 22 anos procurou a diretoria e um curioso acordo foi feito com a promessa cruzeirense: mesmo tendo uma multa milionária de 60 milhões de dólares, segundo o GE, Vitor Eudes irá deixar a equipe mineira sem custos por causa dos salários atrasados.

Para deixar o clube pela porta da frente, o atleta abriu mão de todos os seus vencimentos atrasados e não entrará na justiça contra o Cruzeiro – movimento comum entre os ex-atletas do time mineiro. Em contrapartida, a Raposa abriu mão de 70% do passe do jovem goleiro e Vitor Eudes assinará com o Marítimo, time que disputa a elite do futebol português, por cinco anos, com o Cruzeiro mantendo 30% do atleta para uma transferência futura.

Mesmo com a manutenção destes 30% dos direitos do goleiro, a negociação é preocupante para o Cruzeiro, pois evidencia que a equipe não é atraente para jovens talentosos como Vitor Eudes. O arqueiro era tido como uma das promessas da base, tinha uma alta multa rescisória e, teoricamente, estava sendo preparado para substituir o experiente Fábio. Porém, Vitor Eudes deixou o Cruzeiro com apenas duas partidas feitas – atuou frente ao Patrocinense, pela Taça Inconfidência de 2020, e na penúltima rodada da Série B de 2020, após expulsão de Fábio – e sem ser realmente aproveitado pela Raposa.

Aparentemente, como detalhado em seu Instagram, Vitor Eudes deixou o Cruzeiro realmente pela porta da frente e leva apenas os pontos positivos de ter se desenvolvido na base cruzeirense. No entanto, é certo que o aproveitamento do atleta poderia ter sido melhor para a própria Raposa. Após publicidades continua a matéria.

 

 

Outros precoces

Com incontáveis problemas internos, o Cruzeiro passa pela maior crise financeira da sua história e os jovens jogadores não possuem culpa deste momento. E até pela expectativa de evoluir em um clube que esteja mais estruturado, é claro que alguns atletas fazem a escolha de deixar a Toca da Raposa para se desenvolver em outro lugar. Infelizmente para os cruzeirenses, esta já é uma realidade e, aparentemente, será difícil deixar de vez este “fundo do poço”.

Por exemplo, no início de 2020, duas crias da base que o torcedor cruzeirense gostava bastante deixaram o clube por causa de salários atrasados. Rafael era tido como o substituto ideal de Fábio e foi para o rival Atlético, enquanto Ederson se destacou no Brasileirão de 2019, foi para o Corinthians e hoje é um dos destaques do Brasileirão pelo Fortaleza. Obviamente, Rafael é mais velho, mas é mais um exemplo de que os jogadores visualizam os problemas da equipe e vêem que a saída precoce é a melhor opção.

Outras promessas que deixaram a Raposa nos últimos meses até geraram um valor, mas este montante foi irrisório pelo potencial. Cacá foi tido como um dos melhores zagueiros da Raposa e era muito querido pelos torcedores, mas rumou ao futebol japonês por 2 milhões de dólares. Já Jadsom Silva entrou com um processo contra o Cruzeiro, porém realizou um acordo ao receber uma proposta e foi para o Red Bull Bragantino por 1 milhão de dólares. O exemplo mais inexplicável é Maurício: o jovem de 19 anos foi envolvido na negociação de William Pottker, foi para o Internacional por um preço baixíssimo e, hoje, é um dos destaques do Colorado na temporada. Outros nomes como Caio Rosa, Edu, Gabriel Brazão Weverton acabaram deixando a Raposa nos últimos anos sem ter chances reais no time titular e sem render bons negócios.

A explicação

Estas saídas precoces têm uma explicação óbvia: o Cruzeiro não possui poder de barganha. Uma equipe desajustada internamente não consegue se impor no mercado e exigir altos valores – todos os times sabem que a Raposa precisa urgentemente do dinheiro e oferece qualquer quantia. Além disso, um clube que segue devendo salários não tem o direito de contrariar o desejo dos jogadores.

Não cumprir os seus deveres básicos, como o pagamento de salários, é algo inadmissível em qualquer empresa. O Cruzeiro está sendo gerido por uma diretoria que prometeu que isso não iria acontecer, mas os salários atrasados já “estão sendo normalizados” dentro da Raposa. Isso não pode ocorrer.

Enquanto a Raposa não se reestruturar, “mais Vitor Eudes’s” irão deixar a equipe, mais “Maurício’s e Ederson’s” irão se destacar na elite do futebol brasileiro e o Cruzeiro não conseguirá lucrar com nenhum bom jogador. É o novo normal cruzeirense? Até quando?