Ciro e suas caras: ontem, dizia que Brizola era “supra-sumo do atraso”, hoje o fundador do PDT virou “estadista”


Na verdade, o que tem atrapalhado o Ciro Gomes de crescer na política e chegar mais perto da disputa, com chances de alcançar um cargo maior, como a presidência da república, é a sua própria fala. A sua língua termina o condenando, pois tudo fica gravado nem só na memória do povo, como nos arquivos da mídia, para na hora certa soltar. Nas eleições de 2018 ele, que dizia ser amigo de Lula, foi o principal cabo eleitoral do Bolsonaro, quando esculhambava o PT e o Lula junto. à medida que a sua língua em brasa falava coisas terríveis contra o Lula e o PT, ele não crescia, mas ajudava o Bolsonaro a subir nas pesquisas.

Ciro Gomes participou ontem de uma live em tributo a Leonel Brizola, juntamente com o presidente do PDT, Carlos Lupi, e a neta do ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro Juliana Brizola, que é deputada estadual.

A live foi realizada a propósito da passagem dos 16 anos da morte de Brizola, cujo legado Ciro Gomes diz honrar. Naturalmente, ele não falou — nem ninguém lhe cobrou — sobre o que pensava do Velho Caudilho quando este estava vivo. Brizola gostava de ser chamado assim.

Em 1994, governador do Ceará e cabo eleitoral de Fernando Henrique Cardoso, Ciro detonou o líder trabalhista, que era candidato a presidente.

“Brizola é o supra-sumo do atraso”, disse. “Brizola é populista e, pior, com discurso de esquerda”.

Está certo que o que Ciro Gomes diz não se escreve.

Ontem, aquele que se apresenta (ou é apresentado) como o Brizola dos tempos atuais, disse coisas como:

“Vamos juntos homenagear a memória e o exemplo do herói nacional Leonel de Moura Brizola, que nos deixou há 16 anos.”

Em 1994, Brizola era o “supre-sumo do atraso”. Ontem:

“Brizola era um verdadeiro líder, um grande estadista, que tinha amor pelo povo brasileiro. Tudo o que eu não vejo no atual presidente, principalmente o amor pelo povo.”

O populista de 1994 virou ontem, em palavras ditas pela mesma boca:

“Brizola entendia o quanto é importante a pesquisa, o conhecimento, a cultura e as tradições do nosso povo.”

Quer mais?

“A melhor maneira de homenageá-lo é seguindo seu exemplo, é continuar lutando pelo Brasil, é continuar acreditando nessa pátria, continuar acreditando na educação como único instrumento de transformação e libertação de um povo.”

“Brizola sempre nos ensinou a ter muita coragem para resistir. A história do trabalhismo é a história da resistência.”

A incoerência não é surpreendente na trajetória de quem já foi do partido da ditadura, defendeu a anistia sem investigar a tortura, foi tucano, defendeu a entrada do PSDB no governo Collor, foi aliado de Paulinho da Força, serviu ao governo do PT e hoje ataca Lula.

O presidente do PDT, certamente, sabe que ele não é confiável. Mas o tolera, porque acredita que os 12% que teve nas últimas eleições podem se repetir em 2022 e, assim, ajudar a eleger uma bancada de deputados razoável.

O risco para o PDT é que, em 2022, ele pode virar uma Marina Silva e, assim, levar para a sua cova política o partido que Brizola construiu sob suor e lágrimas.

Fatos são fatos. Com informação do DCM.