Bolsonaro contamina jovens como o atirador de Suzano


GILVANDRO FILHO: É um escárnio completo a declaração do senador Major Olímpio, de que a tragédia do Colégio Estadual de Suzano teria sido evitada se os professores e serventes estivessem armados. Ao mesmo tempo pensamentos toscos dessa natureza são a base daquilo que defendem os bolsonautas e os armamentistas que infestam este país. Por eles, viveríamos numa guerra aberta, nas ruas, com todos armados, cada um mais brabo que o outro. Ao mesmo, a indústria das armas, à frente a Taurus tão querida dos parlamentares e do próprio presidente Jair Bolsonaro, estaria cada vez mais próspera e capitalizada.

A tragédia ocorreu na manhã dessa terça-feira (13), em Suzano (SP), quando um adolescente e um homem de 25 anos invadiram a unidade escolar e saíram atirando, o que resultou na morte de 10 pessoas, além dos próprios assassinos que se mataram. O atirador (o outro portava uma besta medieval, espécie de arco e flecha mais potente), não coincidentemente, era fanático por Bolsonaro e por armas.

De volta ao começo, o Major Olímpio é um dos mandachuvas do PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro, no Congresso. E um dos mais atuantes parlamentares da chamada “bancada da bala” que reúne os armamentistas na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Todas as vezes que acontece algo semelhante, ele aparece para expelir diatribes do gênero. Frase semelhante ele execrou quando do episódio de Realengo, bairro no Rio de Janeiro, em abril de 2011, em que 12 crianças morreram no tiroteio protagonizado por um atirador de 23 anos.

Mas, o Major Olímpio está longe de pregar no deserto. Pelo contrário, ele é voz ativa num imenso coral de “cidadãos de bem” que defendem a resposta a bala aos ataques da bandidagem. Para eles, pouco importam o número de mortos que, desta maratona maluca, podem redundar. Isto não interessa a ele nem aos colegas dele, grande parte financiados pelas Taurus da vida, gigantes pela própria ampliação dos conflitos armados no País.

O armamentismo é um dos lobbies mais fortes do Congresso e tem no governo Bolsonaro um aliado de primeira hora. A flexibilização do Estado do Desarmamento foi a primeira promessa de campanha a ser cumprida pelo presidente. A partir do decreto presidencial número 9.684, baixado por Bolsonaro, um fanático por armas, está liberado para cada brasileiro que atenda às “exigências legais” (75% dos brasileiros, mais ou menos) a posse de até quatro armas do fogo dentro de casa.  É o começo do fim do Estatuto do Desarmamento.

Quatro armas para cada brasileiro habilitado pode significar 142 milhões de brasileiros armados e prontos para a guerra. Em confronto com o arsenal ilegal que não vai deixar de existir, sabe-se lá o que pode acontecer. Na prisão dos milicianos – entre eles um vizinho de Bolsonaro, em condomínio de classe alta na Barra da Tijuca -, acusados de assinar Marielle Franco, no começo da semana, chegou-se ao amigo de um deles que possuía, em casa, nada menos que 117 fuzis. Isto é significativo. E a Taurus agradece, penhorada e babando.

O fim do desarmamento, como dito, foi uma das principais bandeiras de campanha de Bolsonaro e é um dos seus nortes ideológicos. O gesto de fazer arminhas com as mãos, que envolveu de forma criminosa, crianças e adolescentes, deveria ser o símbolo do seu governo. O ato de sair atirando a resolvendo na bala as pendengas é um ato cívico para o presidente e sua gente.

Então, no momento em que um jovem tresloucado se arma, põe uma máscara, invade uma escola e sai atirando a esmo, ele não é só mais um desequilibrado que sai de casa com a possibilidade de matar. Ele é um aprendiz de uma ideologia assassina que começa com o estímulo da guerra entre bandidos e “decentes”. Isto tira da lei e da polícia a responsabilidade de criar mecanismos que aumentem a segurança e executem de forma eficaz essas medidas.

Para os armamentistas, muito mais eficiente que a polícia bem treinada, bem paga e bem armada é a população de revólver na cinta brigando aos os bandidos. É a professora e o servente da escola pública – para usar o exemplo do Major Olímpio – sacando os seus 38 e confrontando o louco que invadiu a escola para matar seus antigos colegas. É a estudante universitária puxando sua pistola para evitar (evitar?) o estupro de que lhe ameaçam três tarados armados. É o casal de velhinhos dormindo no meio de sua trincheira esperando o ladrão chegar para reagir e “defender seu patrimônio”. Na cabeça dos armamentistas está aí a verdadeira política de contenção ao crime.

O armamentismo não é apenas uma insanidade. É uma ideologia deste grupo que chegou ao poder. A este grupo, à frente o presidente da República, deve ser cobrado o que pode acontecer neste país com o povo armado e a guerra civil batendo na porta. O fato de o atirador de Suzano manter uma página de rede social (já apagada) repleta depostos alusivos ao fim do desarmamento e ao bolsonarismo não pode ser apenas detalhe. É a mostra de um exemplo que lhe contaminou. E que deve estar contaminado muito mais gente por aí.

GILVANDRO FILHO é Jornalista e compositor/letrista, tendo passado por veículos como Jornal do Commercio, O Globo e Jornal do Brasil, pela revista Veja e pela TV Globo, onde foi comentarista político. Ganhou três Prêmios Esso. Possui dois livros publicados: Bodas de Frevo e “Onde Está meu filho?”